sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A BELEZA E AS BELAS ARTES

A beleza fala à alma; excita a admiração e a simpatia. No dizer de Plotino, admirar é imitar; simpatizar é vibrar em uníssono, e não se pode amar uma coisa sem procurar assemelhar-nos a ela: Amor pares invenit aut facit.O primeiro efeito da beleza é, assim, levar-nos instintivamente à imitação e a reproduzi-la em nós. A admiração, quando atinge determinado grau, estimula a actividade, provoca a exaltação e, sob certas circunstâncias, fecunda a inspiração. A partir deste momento já não é suficiente compreender a sublime linguagem da arte; passa-se a desejar falar essa linguagem, isto é, a exprimir o que se sente. Assim, a Arte se apresenta sob a forma reflexa. A criação reflexa da beleza pelo homem constitui a própria Arte.

De acordo com a forma pela qual exprimem a beleza, as artes dividem-se em Artes Plásticas e Artes Fonéticas. As Artes Plásticas – arquitetura, escultura, pintura, desenho – empregam as formas e as cores. Projetam os objectos nos espaço, em três dimensões, como a escultura e a arquitetura, ou em somente duas, como a pintura e o desenho, suprindo a terceira dimensão através dos artifícios da perspectiva.

As Artes Fonéticas – música, canto, oratória, poesia, teatro – exprimem a beleza por meio de sons musicais ou de sons articulados. Estas obras de arte desenvolvem-se no tempo. Não estando localizadas no espaço, como as artes plásticas, as artes fonéticas são mais expressivas do que descritivas. Apesar disso, a poesia, devido às metáforas que emprega e devido à imaginação, que representa as coisas ao vivo, participa grandemente do privilégio das artes plásticas.

Para descontrair, uma pequena história sobre a Beleza e o Belo, escrita pelo Irmão e filósofo irreverente, Voltaire:Perguntem a um sapo o que é a beleza, o belo admirável, e ele responderá que á a fêmea dele, com os seus dois grandes olhos redondos, salientes, espetados na pequenina cabeça, com um focinho largo e achatado, barriga amarela, dorso acastanhado. Perguntem ao diabo, e ele dirá que é um belo par de cornichos, quatro garras afiadas e um rabiosque enrolado. Consultem, por fim o filósofo, e este responderá com uma algaraviada desconexa, numa gíria arrevezada; é-lhes indispensável algo de conforme o arquétipo do belo.

Em suma o sentimento do belo é uma coisa muito relativa, do mesmo modo que aquilo que é decente no Japão é indecente em Roma, e o que está em moda em Paris é detestado em Pequim.

O SUBLIME, O BONITO E O FEIO

O sublime não é somente o belo no seu grau mais elevado. O sublime distingue-se essencialmente do belo, de acordo com Kant, que diz: “O sublime é a expressão sensível do infinito”. O belo é a expressão harmoniosa da vida, em particular, da vida humana; o caráter do sublime é a intensidade, a ilimitação. O sublime pode encontrar-se no caos e até no horrível, onde a imaginação se confunde e a razão se espraia à vontade, estando ali como no seu elemento, pois nasceu para o infinito.

O bonito, o gracioso, lindo ou encantador, é forma inferior do belo. Entre o belo e o bonito não há diferença essencial. O bonito ainda é belo, mas belo sem a grandeza, sem a amplitude, sem o brilho da energia do belo em toda a sua intensidade. Assim, um carvalho secular, um grande lago, podem ser belos; mas um riacho ou uma flor, são só lindos. O feio opõe-se ao belo; o que não significa que lhe faltem todos os elementos do belo, mas simplesmente que lhe falta algum destes elementos em grau elevado.

A BELEZA, A VERDADE E O BEM

São íntimas as relações e as analogias entre estas três idéias, que muitas vezes se empregam para se definirem mutuamente. É conhecida a definição falsamente atribuída a Platão: “a beleza é o esplendor da verdade”. Outros definiram: a beleza é o esplendor do bem. O bem moral é frequentemente designado sob o nome de belo. De facto, o verdadeiro, o belo e o bem, em si mesmos, identificam-se no mesmo ser, do qual são três aspectos diferentes.Esta é a razão porque Deus, sendo um Ser absoluto, é também a verdade perfeita, a beleza suprema, e o bem infinito; por isso mesmo, todo o ser vivente, criado à sua imagem e seguidor da sua doutrina, é verdadeiro, é belo e é bom.

Mas, ainda que no ser absoluto estes três conceitos se identifiquem unidos, em relação ao homem eles são distintos; isto porque o homem os identifica por meio de faculdades diferentes, o que obriga a distingui-los de maneira específica, à semelhança do prisma que decompõe a luz nas cores elementares.O verdadeiro, percebido pela inteligência, é o objeto da ciência; o bem, realizado pela vontade, é o objecto da moral; e a beleza, conhecida pela imaginação e sensibilidade superior, é o objecto da estética.

A Beleza

Nada é mais conhecido do que o sentimento do belo; nada é mais difícil de definir do que a sua idéia. Na humanidade, a Beleza produz dois efeitos: dá-lhes prazer e provoca-lhes um juízo. O juízo estético é universal, isto é, quando afirmamos que certo objecto é absolutamente belo, todos devem estar de acordo.A emoção estética é um sentimento agradável, composto de simpatia, de prazer e de surpresa, que pode ser resumido em admiração. Segundo S. Tomás de Aquino, a beleza é a ordem, isto é, a unidade na variedade. Poder-se-ia objetar que há uma certa ordem, uma certa regularidade que nada tem a ver com a beleza. Por outro lado, dizia Boileau que “uma bela desordem é o efeito da arte”.Toda a beleza é essencialmente expressiva; um objeto é belo por causa das idéias e sentimentos que nos sugere. A beleza é expressiva porque exprime a vida e, em particular, a vida do nosso espírito. No dizer de Platão, “a graça das formas provém de elas exprimirem, na matéria, as qualidades da alma”.
Segundo diz Aristóteles na Poética, “toda a beleza deve-se assemelhar à vida”. A beleza é a expressão da vida, mas não de uma vida qualquer; há certas formas de vida que são diminuídas, disformes ou abortivas da vida, que são objecto de compaixão, de desgosto, de aversão e até de horror. O que excita em nós a simpatia, a admiração, o entusiasmo, é a expressão de uma vida rica, livre e harmónica. Assim sendo, podemos definir a beleza como sendo: A expressão que estimula agradavelmente os sentidos, a imaginação, a razão e o sentimento. Esta definição reúne e harmoniza todos os elementos essenciais contidos nas definições de Aristóteles, de S. Agostinho e de S. Tomás de Aquino.

A Lei Iniciática do Silêncio

Platão, quando foi chamado a ensinar a arte de conhecer os homens, expressou-se do seguinte modo: “os homens e os vasos de terracota conhecem-se do mesmo modo: os vasos, quando são tocados, têm sons diferentes; os homens distinguem-se facilmente pelo seu modo de falar”. O pensamento do filósofo Iniciado oferece-nos uma excelente oportunidade para fazermos uma profunda reflexão, principalmente para os que integram a Ordem Maçónica.

Nem sempre nos damos conta de como nos tornamos prisioneiros das palavras que proferimos. Quer por serem a expressão do nosso pensamento; quer por traduzirem as idéias e os sentimentos. Na verdade, as palavras tornam-se um centro emissor de vibrações, tanto positivas quanto negativas.

A palavra é o elemento que identifica o Homem e é a síntese de todas as forças vitais; é o elemento que interliga todos os planos, do mais denso ao mais sutil.

A palavra está intimamente ligada ao silêncio, outra sublime expressão da psique humana.

No mundo profano, a palavra - falada ou escrita - é usada indiscriminadamente. A sociedade humana está cheia de palavras que ofendem, que humilham, que magoam e que denigrem a honra do próximo. Se se trabalhassemos mais e se falassemos menos, com certeza que a humanidade seria mais evoluída e mais civilizada. Infelizmente existem palavras em excesso, não só no mundo profano como também nos Templos Maçónicos. Tal situação é inconcebível em um Maçom, pois no estudo dos símbolos ele aprende a refletir sobre o conteúdo oculto das palavras que, em última análise, refletem a essência interior do ser humano.

Não é por acaso que a filosofia Maçónica reserva o silêncio aos seus membros, de acordo, aliás, com a Tradição Pitagórica. A Escola Iniciática de Pitágoras tinha um sistema de três graus: o de Preparação, o de Purificação e o de Perfeição. Os neófitos do grau de Preparação, equivalente ao grau maçónico de Aprendiz, eram proibidos de falar; eram apenas ouvintes e cumpriam um período de observação de três anos, durante o qual a regra era calar e pensar no que ouviam. No grau de Purificação, equivalente ao de Companheiro Maçom, o silêncio estendia-se por mais dois anos, adquirindo estes Irmãos o direito de ouvir as palestras do Mestre Pitágoras. Assim, para atingir o grau de Perfeição, equivalente ao de Mestre Maçom, quando então os Irmãos podiam fazer uso da palavra, era necessário praticar o silêncio durante cinco anos.

Nas reuniões maçónicas, sem dúvida, que constitui uma prova de sabedoria saber ouvir e manter o silêncio. Chílon, um dos sete sábios da Grécia Antiga, quando lhe perguntaram sobre qual era a virtude mais difícil de praticar, respondeu: “calar”.

No Zend Avesta, que contém toda a sabedoria da antiga Pérsia, encontramos normas e regras sobre o uso e o controlo da palavra, cuja universalidade desafia os séculos. No mundo maçónico, a dimensão da palavra falada e escrita não é muito diferente. O neóftico ao entrar na nossa Sublime Instituição encontra, no ritual, referências à sacralidade da palavra que, como meio de expressão dos pensamentos e dos sentimentos, deve ser sempre dosada, moderada, e deve espelhar o equilíbrio interno do orador.

Na nossa Ordem, a palavra deve ser usada no mesmo sentido em que Dante Alighieri exortava na Divina Comédia o seu personagem Metelo: “usa a tua palavra como um ornamento”.

À primeira vista, o silêncio poderia parecer um condicionamento e um castigo. Na realidade, o silêncio, a meditação e o raciocínio, são a única via que leva à libertação das paixões e dos maus pensamentos. Além de exercitar a autodisciplina, em seu silêncio o Maçom apreende com muito maior intensidade tudo o que ouve e tudo o que vê.

Assim, a voz do Irmão que se mantém em silêncio é a sua voz interior, quando ele dialoga consigo mesmo e, neste diálogo, analisa, critica, tira suas próprias conclusões e aprimora o seu caráter.

Em suma, pelo silêncio, a Maçonaria estimula os Irmãos a desenvolver a arte de pensar, a verdadeira e nobre Arte Real. Deste modo, o silêncio em Maçonaria não é meramente simbólico e não é também um meio de castrar a iniciativa dos Irmãos. O silêncio é indispensável e decisivo no processo de lapidação da Pedra Bruta e no aperfeiçoamento interno dos Irmãos.

Ao cruzar as portas de uma Loja Maçónica, trazendo consigo a liberdade total de expressão, um direito natural que lhe é garantido pela Declaração dos Direitos Humanos, sem as restrições que lhe impõem a moral e a razão, o novo Maçom aprende a controlar os seus impulsos, pela prática espartana do silêncio.

Assim, o maçom aprimora o seu caráter e prepara-se para ser um líder, numa sociedade na qual prevaleçam a Liberdade responsável, a Igualdade de oportunidades e a Fraternidade solidária.

Se tiver de falar, que o maçom siga o conselho de Dante e use a sua palavra como um ornamento. Tudo se resume na prática da Lei do Amor e da Tolerância. Certamente que o Grande Arquiteto do Universo ilumina e abençoa a todos os que pensam mais do que falam, pois estes espiritualizam a sua matéria, e são os Seus filhos mais diletos.

No Templo:O Irmão Aprendiz não só pode como precisa e deve usar a palavra, nomeadamente quando apresenta os seus trabalhos, quando for questionado por outro Irmão, quando tiver informação relevante sobre qualquer candidato à Iniciação, ou quando tiver informação fundamental para a Loja ou para a Ordem. Basta pedir a palavra ao Vigilante da sua Coluna.

O Princípio Vital

A Vida e a vontade Divina são o centro de todo o Universo, que o controla e o superintende em toda a sua grandeza e magnificência, tal como o Sol é o centro e a fonte de vida de todo o nosso Sistema Solar, do mesmo modo que o Universo, este também controla e alimenta de vida os planetas que o rodeiam. Também na vida humana existe um princípio vital e imortal que controla a sua existência, e é um ponto dentro do círculo da sua própria natureza. Porém, vivendo como o Homem vive neste mundo físico, este círculo está limitado por duas grandes linhas paralelas, que representam Moisés e o Rei Salomão, ou seja, o espírito do Homem é controlado pela Lei e pela Sabedoria.

Liberdade

O homem quando se liberta da escravidão dos seus desejos redime o seu espírito, pois liberta-se de todo o erro e de todo o vício, algozes da sua vontade. É como se levasse à sua consciência a luz, que ilumina e põe a nu todos os obscuros recantos desta, purificando-a.

Na verdade, a ausência de domínio da vontade, representa a vitória do mal sobre o bem e, em boa verdade, todo aquele que sucumbe ao poder da escuridão, acaba por se tornar ignorante e escravo de si mesmo, dando desta forma continuidade à história iniciática do homem que se transforma em servo da vontade dos seus desejos.

Sucumbir a toda a espécie de materialidades e desejos, significa tornar-se escravo do mundo e de tudo que nele existe. Porque ser escravo é deixar de ser senhor de si mesmo, para se tornar servo dos desejos obscuros da mente, o que significa perder-se para o espírito e por conseguinte, para a sua própria divindade. Pelo que ser escravo, significa tornar-se um espectro perante Deus e, nada mais do que uma sombra desprovida de divindade.

A Filantropia, Solidariedade e Assistência Social

A ação social do maçom repousa na certeza que a Maçonaria busca a felicidade humana porque, em sua essência, o amor é que determina sua existência. Para esse autor, o certo não é apenas preocuparmo-nos com a origem da Maçonaria, mas como ela é hoje estruturada. Não nos fixarmos apenas em sua história, por mais gloriosa que possa parecer, mas como ela vive hoje, para preservar o presente e construir o futuro. Não nos orgulharmos com as pessoas, que na Ordem, vivem ao nosso lado, por mais destacadas que sejam - grandes maçons - mas que nós também somos maçons. Realiazarmos uma auto-crítica permanente, questionando nosso trabalho e o de nossos Irmãos.

Para ajudarmos na construção do verdadeiro paraíso, porque chegará o dia em que haveremos de nos concientizar, fomos buscar um trecho de uma das célebres orações de Dom Helder Câmara: “A beleza de uma cidade não está na beleza de seus teatros, na grandeza de seus estádios, de seus jardins, de seus monumentos, no esplendor de sua catedral... A beleza de uma cidade se realiza quando todo mundo tem uma casa digna de ser habitada por pessoas humanas, quando há água potável para todos, a saúde garantida para todos, a possibilidade de frequentar a escola para todos, a possibilidade de lazer para todos, para que o desabrochar da dignidade de cada um possa tornar-se uma realidade viva e completa.”

Não importa o nome que se lhe dê; procuremos expandir a nossa consciência até que vejamos o universo com sua natureza centrada na Divindade. O sentimento que acompanha esta experiência é o de uma unidade completa com o Todo Universal. O ser funde-se numa euforia de unidade absoluta com toda a vida: com a humanidade, com todas as criaturas da Terra, com as árvores e as plantas, o ar, a água e a própria Terra. Esta natureza centrada em Deus está aguardando constantemente para reger a nossa vida na plenitude do Bem.

Concentrem-se em dar, e estarão abertos para receber; concentrem-se em viver de acordo com a luz que tenham, para que possam abrir-se a mais luz; recebam toda luz possível através da senda interior. Se tal receber lhes parece difícil, busquem alguma inspiração numa linda flor ou numa bela paisagem, numa música bonita ou em algumas belas palavras. Em todo caso, aquilo que se contata desde fora, deve ser confirmado dentro, antes que seja seu.

A Confiança no poder de Deus

Deus é dia e noite, Inverno e verão, guerra e paz, abundância e fome. Transforma-se como o fogo em que se misturam aromas. Cada um o nomeia como quer.

Heráclico de Éfeso, Grécia antiga, cerca de 540-480 ªC.



De todas as vigas mestras que sustentam os princípios filosóficos da Maçonaria, a confiança no poder de Deus talvez seja aquela que sustenta todas as demais. Pelo que considero ser esta a mais forte de todas as vigas que já abordámos, uma vez que as outras vigas dificilmente resistem às vicissitudes e iniquidades humanas que surgem no dia a dia, que Infelizmente são muitas, tal como disse o próprio Divino Mestre: “o espírito na verdade é forte, mas a carne é fraca”.

Assim, por ser esta a viga mais forte do Templo maçónico, o verdadeiro maçom regular é aquele que confia em Deus, sem nenhum fingimento, reserva, ou subterfúgio. Pois, está ciente de que com as suas próprias forças fracassará num qualquer amargo de vida, e que por consequência desta sua fragilidade, acabará por deixar de confiar em si e nos Homens. Pelo, que confiando no poder de Deus, de Quem espera o socorro e a protecção nas suas muitas vidas, acabará por acreditar que há sempre um futuro, não apenas para si próprio, mas para todo o ser humano.

Deste modo, o maçom regular ao confiar no poder de Deus, faz com que Este reine no seu coração, orientando-o para o caminho certo, ao mesmo tempo que o ajuda a discernir entre o caminho do bem e do mal.

Tal como o profeta Isaías pregou, quando se referiu à grandeza de Deus e à confiança que o Homem Nele deveria ter: “os que esperam no Senhor, adquirirão sempre novas forças, tomarão asas como as da águia, correrão e não se fatigarão, andarão e não desfalecerão”. Na verdade, é muito singular que o Profeta Isaías compare os que confiam em Deus com o voo das águias. De facto, elas têm uma forma muito peculiar de enfrentar as tempestades. Quando se aproxima uma tempestade as águias abrem as suas asas, e voam em direcção ao alto, onde o Sol por cima das nuvens brilha majestoso e sublime. Nesta luta titânica podem perder algumas penas, podem até mesmo ferir-se, mas não temem o perigo, e temerárias voam sempre em direcção ao alto. Depois, enquanto todas as criaturas vivas ficam mergulhadas na escuridão molhada, elas voam vitoriosas e em paz num brilhante céu azul.

Por outro lado, a ausência de fé numa Divindade Criadora facilita no Homem o aparecimento do medo, a angústia, a ansiedade, a tristeza, a desilusão, o egoísmo, a infelicidade e os demais sentimentos negativos, os quais são frequências mentais que destroem e aviltam a dignidade humana. Pelo que tanto a fé no Criador, como o trabalho em benefício da família humana e a firme vontade de caminhar na senda do Bem, constituem a base da satisfação e felicidade de qualquer vida humana.

Todavia, se pensarmos na confiança da águia, em que para lá do tecto cinzento brilha um radioso Sol, será racional acreditarmos na existência do Deus padrão? Poderá apresentar-se uma boa razão, ou um argumento plausível a favor da sua existência? Alguns teístas dizem que não, e baseiam a sua crença na fé, ou seja, acreditam sem provas ou razões que provem a sua existência. Por outro lado, outros teístas pensam que se podem construir argumentos para provar que o Deus padrão existe.

Qualquer que seja a verdade, tal como a águia, quando vejo a natureza, o verde das plantas, o azul cinzento do horizonte, essa cor parda e mística da mistura da terra com o mar, bordada por um farrapo laranja de Sol, que contrasta com a cor de um céu cósmico pontilhado por muitos pontos cintilantes; encontro uma grande serenidade, que me invade o espírito. E, nela vejo e sinto a presença de Deus! Aliás, estas imagens idílicas trazem-me sempre a lembrança da presença de Deus, e com estes pensamentos ancorados na Divindade, sinto que sou um homem muito feliz. Aliás, Deus tem muito prazer em que admiremos a sua obra e que Lhe demos graças por esta, porque este princípio bíblico nos traz a paz e a segurança.

Então! Se Deus é a Natureza, o ar que respiramos, o Cosmos e todo o Universo, o que significa crer-mos na ajuda permanente de Deus metafísico? O que significa ter-mos uma consciência da Sua presença constante? Depois de nos cobrirmos com o manto do silêncio, e de termos reflectido muito, chegamos à conclusão que conhecer Deus é vivermos com Serenidade e Paz Interior. Conhecer Deus é enchermo-nos de Felicidade, e com esta, transbordamos a a nossa alegria para todos aqueles que nos estão próximos, ou que connosco convivem. E, para encontrarmos Deus, basta obedecermos às leis divinas, amando a humanidade, sentindo a Natureza, renunciando à vontade pessoal, aos apegos, aos pensamentos e aos sentimentos negativos. Se assim o fizermos estamos aptos a encontrar Deus no nosso templo do silêncio. Pois, Deus habita no nosso coração.

Consciente da presença de Deus, passei a ter somente um desejo: cumprir a vontade e os desígnios de Deste. Pelo que quando Deus me guia na direcção de um caminho, com muito gosto percorro esse caminho. Quando Deus me transforma num guerreiro da Luz, com o mesmo gosto ergo a espada e em seu nome procuro a rota resplandecente da verdade, do bem, da solidariedade e da fraternidade, procurando estar sempre disponível para iluminar o caminho dos Homens livres e de bons costumes. Se sou criticado pelo que em Seu nome faço, humildemente recebo a critica. Se o que faço em Seu nome me trás um elogio, imediatamente dou graças a Este, porque apenas sou um instrumento através do qual Deus faz o Seu trabalho. E, porque sei que quando Deus me ordena que faça algo em seu nome, Ele me dá a Sabedoria, a Força e a Beleza necessárias para realizar a obra que me ordenou executo-a com empenho e confiança, seja esta obra de execução fácil ou difícil. Pelo que ao proceder deste modo, estou convicto que caminho à luz do amor de Deus, da paz e da serenidade. Por isso, quando o Sol se põe, volto-me para Deus com os melhores pensamentos de agradecimento e de louvor, pronto para o receber de novo no Oriente. Pois ao viver de acordo com a luz mais elevada que tenho, torno possível que me seja dada mais luz.

Não é possível interpretar mal a luz que vem da Fonte, porque esta nos chega com um entendimento pleno, de maneira que podemos explicá-la e comentá-la. Pelo que recomendo este caminho a todo aquele que queira caminhar na companhia de Deus. Grandes bênçãos estão reservadas àqueles que tenham a sabedoria de colocar em prática a luz mais elevada que lhes chegue. Pois, através desta luz, um dia o Homem será deus em potência e em acção.

Aliás, de harmonia com as premissas da alquimia interior, o Homem caminha para a essência Divina. E, de acordo com estas mesmas premissas, depois do Homem ter vencido e dominado os quatro elementos, o Homem dominará o quinto elemento, que segundo os antigos alquimistas, consiste na energia primordial criadora do Universo. Pelo que somente com o Divino poder da “Sabedoria” e da “Força de Vontade”, o Homem poderá triunfar sobre o quinto elemento, para em conformidade com a sua utilização, descer aos infernais abismos, ou ascender aos galácticos céus. E, porque lhe foi legada esta sabedoria, o Homem reflecte que tudo o que vê, toca e sente é uma manifestação do Poder Criador Universal.

Assim, Deus, é a plenitude, a grandiosidade, a omnipresença e a omnipotência. É o Todo presente em tudo. Os universos e tudo o que neles há são partes integrantes desse poder sem limites. A compreensão desta Verdade Absoluta simboliza a porta de entrada ao Templo de Luz que se abre ao Iniciado. Sem que o reconhecimento de que tudo é manifestação do Único, não se pode abrir as portas do Santuário. É no interior deste Templo da Luz, que se sente a Beleza em tudo o que vemos e em tudo o que conhecemos, porque a Divindade está presente e está latente em tudo o que nos rodeia e podemos admirar.

Assim, porque sentimos a presença da Beleza Divina, passamos a reconhecer que fazemos parte no Plano da Vida, com este reconhecimento encontramos a Serenidade e a Paz Interior, que nos conduz à harmonia e bem estar. E tanto mais, que é por reconhecermos a nossa unidade com toda a humanidade e com Deus, que nos tornamos mais fraternos e mais felizes.
Meus irmãos, em face do que lhes falei, a Confiança em Deus é a suprema viga mestra da maçonaria capaz de não só segurar o peso do edifício maçónico em si, como também, tal como a águia enfrenta as tempestades, faz com que o maçom enfrente as tempestades que acaso desabem sobre o templo sagrado.

Muitos de vós trazem uma sede de paz, de comunhão, e de alegria. Para viverem estas Divinas virtudes, confiem no poder de Deus. Pois, será através desta confiança que tornar-se-ão capazes de sair dos vossos medos e receios, e passarão a acreditar que há um futuro, não apenas para vós próprios, mas para todo o ser humano.

A Eficiência e o bem fazer

Pensem em todas as coisas boas de sua vida. Nunca enfatizem suas dificuldades. Esqueçam-se de si mesmos e concentrem-se em servir tanto quanto possam neste mundo e então, tendo perdido seu eu inferior numa causa maior que vocês mesmos, encontrarão o eu superior: seu verdadeiro eu.

Por quê me olha? Olhe seu próprio eu. Por quê me escuta? Escute seu próprio eu. Por quê acredita no que eu digo? Não acredite em mim ou em qualquer outro professor; melhor é confiar em sua voz interior. Esta é seu guia, esta é seu mestre. Seu mestre está dentro de você, não fora. Conheça-se a si mesmo, não a mim!

Caminhe comigo, mas não me siga cegamente. Apoie-se à verdade, não a minhas vestes. Meu corpo é somente uma construção de barro; hoje está aqui, amanhã terei partido. Se você se prende hoje a mim, que fará amanhã, quando já não estiver com você? Ligue-se a Deus, ligue-se à humanidade, só então estará mais perto de mim.

Tudo que é "perfeito" tem limites impostos pelo seu próprio ser ou estado de "perfeição": um ser que manifeste as suas qualidades não o pode fazer sempre em todos os aspectos. O imperfeito, além de não manifestar sua potencialidade, quando o faz, pode fazê-lo de modo a não preencher as características do seu ser.

O homem é um ser social e possui uma individualidade. Não é perfeito e portanto, sob diversos aspectos, limitado. Precisa viver consigo mesmo e com os outros, porém, as leis pessoais não são as mesmas que as sociais. Pelo valor que é a individualidade, alguns homens são melhores em certos aspectos; outros, em outros, e assim a sociedade se completa e a vida social é possível. Mas a moeda tem outra face e o fato das pessoas diferirem em tantos aspectos pode gerar atritos de valores. Os limites das pessoas também são diferentes. Neste ponto começa o limite entre o pessoal e o social.

Nossas limitações são patentes. Não somos o que queremos, não fazemos tudo que sonhamos, não temos o dom de estar onde desejamos. Dentro destes limites é que nos movemos. Conhecer os limites pessoais e os dos outros - pois somos seres que não se repetem - é uma tarefa que dura toda a vida. O limite também não é algo estático, as pessoas mudam. Logo, o sistema de comunicação entre as pessoas é algo dinâmico e tem suas "leis" próprias, que cabe a cada um descobrir em cada momento. Em vez de gastar tempo reclamando que não existe comunicação, poderemos empregá-lo, verificando como estabelecer esta relação.

Por outro lado, quando as pessoas se aproximam, uma tem em relação a outra uma expectativa. Na prática existe também um pré-conceito, mas por ora, vale a pena reflectir sobre a expectativa.

A Sabedoria

A sabedoria é o melhor guia e a fé, a melhor companheira. Deve-se pois, fugir das trevas da ignorância e do sofrimento, deve-se procurar a luz da Iluminação. (Sakyamuni).
Assim como as pedras preciosas são tiradas da terra, a virtude surge dos bons actos e a sabedoria nasce da mente pura e tranquila. Para se andar com segurança, nos labirintos da vida humana, é necessário que se tenham como guias a luz da sabedoria e a virtude. (Sakyamuni).

Se procurarmos o auxílio do dicionário de Língua Portuguesa para melhor conhecermos o conceito de Sabedoria, verificamos que este adopta como significado desta grande virtude: o ter “grande abundância de conhecimentos; conhecimento rigoroso da verdade; ciência; qualidade de quem é sabedor; prudência; rectidão; razão”. No entanto, pela escola da vida, sabemos que Sabedoria não é conhecimento, uma vez que há muito analfabeto mais sabedor que muito doutor.
Também sabemos que não é cultura, uma vez que há muito intelectual de grande cultura e de grande erudição que demonstra ter muito pouca sabedoria. Muito menos significa grande Inteligência, uma vez que há nossa volta há muitos cérebros com um elevado QI, que esbanjam as suas capacidades com uma ingenuidade que nos arrepia e nos causa grande estupefacção. Então, em face desta breve análise, qual será o verdadeiro significado de Sabedoria? Nomeadamente, quando sabemos que Sabedoria significa termos a capacidade de fazer o que devemos fazer, no momento e no tempo certo; que Sabedoria significa termos o conhecimento de quando é tempo para parlamentar e de quando é o momento para agir com determinação e afinco; que Sabedoria significa também sentirmos quando devemos elogiar e quando devemos criticar; que Sabedoria significa concordarmos com naturalidade e discordarmos com elegância; que Sabedoria significa sermos prudentes, e sermos arrojados na determinação e no empenho; que Sabedoria significa não lamentarmos o passado, não nos afligirmos com o futuro e não anteciparmos preocupações, mas sim vivermos sabiamente e serenamente o presente momento. Em suma, através desta reflexão podemos retirar que Sabedoria significa também sabermos viver em cada tempo, com as suas próprias realidades, aceitando o que não pode ser mudado... Pelo que podemos interiorizar que para conseguirmos dotar as nossas decisões no dia a dia com uma grande dose de Sabedoria, temos que estar constantemente atentos e no uso de todas as nossas faculdades e capacidades. Pois, em cada momento da nossa vida devemos ser capazes de temperar os nossos impulsos com a razão, sem abafarmos a nossa intuição, nem tão pouco as nossas mais profundas convicções.

Por outro lado, ao procurarmos viver na senda da Sabedoria, não significa que possamos ganhar todas as batalhas da nossa vida; por vezes, nestas lutas, o termo Sabedoria também tem o significado de sabermos perder, nomeadamente, quando a derrota é menos prejudicial do que a vitória sobre outrem. Pelo que Sabedoria significa também o conhecimento como em cada situação podemos atingir o maior Bem, causando o menor Mal possível.

Na verdade, este desejo de praticar todas as nossas acções à sombra da Sabedoria, implica que seja uma tarefa de hoje, de sempre e de toda a vida, dado que não se é perpetuamente sabedor. Aliás, não há nada de errado em sermos ignorantes. Pessoalmente, reconheço que sou ignorante em inúmeras matérias e nessas só posso contar com a minha curiosidade e interesse para, ao abordar o assunto, me informar sobre a matéria em causa e, assim, tentar chegar a alguma conclusão racional e lógica. Mesmo assim, terei que me resumir à minha ignorância se estiver a falar com alguém com mais conhecimentos do que eu na dita matéria e tentar, sempre que possível, aprender algo neste processo. Pois, aconselha o velho mestre, que devemos aprender com quem mais sabe!

Todavia, a definição de Sabedoria que encontrámos tanto no dicionário como nas reflexões é manifestamente parca e insuficiente para caracterizarmos a verdadeira Sabedoria. Ora vejamos esta analogia! Quando nos encontramos num local imerso na escuridão, uma das nossas alternativas, é acendermos uma luz, para que ilumine o ambiente e possamos desta forma caminhar sem esbarrar nos possíveis obstáculos que nos cercam. Naturalmente, que quando a luz por alguma razão se apaga, o ambiente volta a mergulhar nas trevas. E, nessa escuridão repentina, voltamos a ficar imersos na cegueira, pelo que voltamos a estar sujeitos a chocar com os objectos que nos circundam. De igual modo, durante toda a nossa encarnação material estamos condicionados ao que os nossos olhos vêem, sem nos apercebermos da energia que os objectos também emanam. Aliás, o nosso condicionamento à visão é de tal modo escravizante, que na escuridão deixamos de ter parâmetros de referência e, por isso, facilmente nos perdemos. Até mesmo, se esta durar apenas alguns breves instantes, e tenhamos caminhado durante dezenas de anos nesse local. Aliás, se tentarmos caminhar pela nossa casa de olhos fechados, temos uma grande probabilidade de chocarmos com obstáculos que sempre estiveram naquele local, e que de olhos abertos, nunca reparámos bem neles. Porém, muito diferente sucede quando acendemos a chama da sabedoria no nosso coração, uma vez que quando assim o fazemos, ela faz com que um fogo sagrado habite dentro de nós. É certo que muito dificilmente saberemos quando essa chama foi acesa, uma vez que somente a maturidade poderá eventualmente responder a esta questão. Contudo, pouco importa termos ou não esse conhecimento, quando apenas nos interessa saber que esta chama existe no nosso coração e que nos iluminará o caminho até à eternidade. E, porque o conhecimento da chama sagrada pertence somente aos mais sábios e de coração puro, muitas vezes, por eles não é publicitada, uma vez que se limitam a reconhecer a sua posse, somente para que o ego não transforme a Sabedoria que possuem num mero conhecimento.

Na verdade, o grande segredo da vida é sabermos manter a chama da sabedoria acesa no nosso coração, uma vez que só dotados desta chama divina podemos trilhar os escuros caminhos das nossas sucessivas encarnações com a firmeza e a segurança nos nossos passos, comungando com tudo que nos cerca, aprendendo a ser parte de tudo, e certamente que tudo não será um obstáculo na nossa caminhada, mas sim ferramentas importantes no nosso caminho evolutivo.

Salomão foi provavelmente o Homem mais sábio que viveu sobre a superfície da Terra. E, tudo porque a seu pedido, a Sabedoria lhe foi outorgada por Deus. Pois, diz a lenda, que quando este grande rei subiu ao trono, ao invés de pedir riqueza, poder, e força para subjugar os seus inimigos, limitou-se a pedir a Deus exclusivamente Sabedoria. E por consequência de ter pedido uma das principais virtudes humanas e de ter reconhecido que a verdadeira Sabedoria é aquela que vem de Deus. Ele recompensou-o, ao lhe conceder uma grande Sabedoria, um grande poder, um grande prestígio e também uma grande riqueza.

O Apóstolo S. Paulo, também nos ensinou que a Sabedoria vinha de Deus, nomeadamente, através da sua frase: “Jesus se tornou, da parte de Deus, sabedoria, justiça, santificação e redenção”. E, nesta vertente, para além de ficarmos a saber que a Sabedoria vem de Deus, podemos ainda concluir que Deus aprende, evolui, se conhece, toma consciência de si e se manifesta através de Sua criação. Afinal de contas se Deus revelado e manifesto fosse estático, o Homem também o seria, pois "assim como é em cima é em baixo". Pelo que o Homem é parte integrante e fundamental da criação e está em evolução até à quarta era da humanidade. E, porque a Sabedoria é um valor muito importante para atingirmos essa mítica era dourada, eis a razão porque a Sabedoria é uma das colunas que suporta o nosso Templo Interior, e é uma das principais colunas da nossa Loja!

Na verdade, já Hermes Trimegitus dos gregos e, Thoth dos egípcios, afirmavam que era o Templo da Sabedoria que os grandes mestres na sua caminhada alcançavam, bastando para isso, simplesmente caminhar, sempre orientado pela luz cósmica e, assim guiados, o encontro com a Sabedoria tornava-se inevitável. Contudo, os grandes mestres quando alcançam a Sabedoria, em vez de darem por concluída a sua caminhada, passam a caminhar ao seu lado, como se precisassem do seu apoio e do seu conforto para atingirem o seu destino Divino. Muito diferente do caminho traçado por aqueles que buscam a Sabedoria, uma vez que estes por estarem dispostos a fazer qualquer coisa para a encontrar, quando isso acontece, eles se auto-intitulam de “Mestres” e esquecem que o caminho deve continuar a ser percorrido, com muito mais responsabilidade e afinco. Ignorantemente, entendem estes últimos, que a Sabedoria é o ponto final da estrada, enquanto que os verdadeiros Mestres entendem que a Sabedoria é apenas o seu início. Aliás, como dizia um místico já esquecido, com uma pertinência ainda hoje insuperável: "ubi amor, ibi oculus", onde está o amor, aí se abre um olho. Pelo que através desta afirmação amorosa, forma-se uma possibilidade de conhecimento, até então nunca percebida, uma concepção que parece abrir-nos o pensamento para um caminho que nos conduz à Sabedoria e ao misterioso infinito.

Pois, será somente dotados de Sabedoria é que podemos percorrer a “nossa casa”, sem que os que nos circundam se tornem obstáculos, mas facilitadores da nossa caminhada até à eternidade, uma vez que a Sabedoria faz com que nos entendamos, e ao mesmo tempo faz com que passemos a entender aqueles que nos circundam. Pelo que em síntese, a Sabedoria não é mais do que o hábito da mente sã, ou a inteligência bem treinada, para colocar diante do nosso espírito o verdadeiro ideal moral que está por atingir e os meios justos para o alcançar.

A Justiça

Se Deus quisesse julgar sem piedade a raça humana, condená-la-ia. Porque nenhum homem pode por si mesmo fazer todo o seu percurso sem cair, seja voluntariamente, seja involuntariamente; também, para salvar a raça, embora permita quedas pontuais, mistura a misericórdia com a justiça, mesmo para com os indignos; e não é depois de julgar que tem piedade, é depois de ter piedade que julga; porque nele a piedade vem antes da justiça.

Filon de Alexandria, 13? A C. – 54? D. C.



Na verdade, o sentido de Justiça é uma virtude central que coordena todas as demais virtudes humanas, uma vez que a Justiça representa a harmonia e o equilíbrio em qualquer sociedade humana, e em particular, na sociedade maçónica, uma vez que para além do Poder da Vontade, da Perseverança e da Força do Querer, o sentido de justiça é uma das mais relevantes virtudes do Maçom. E, tanto mais que para ele o termo “Justo e perfeito”, é a expressão que o reconhece como sendo um verdadeiro “filho da viúva”. E, sendo a Maçonaria uma instituição universal, fundamentalmente filosófica, que trabalha pelo advento da justiça, da solidariedade e da paz entre os Homens, significa também para esta, que a Justiça é uma das suas principais vigas mestres. Por esta razão e, não só, o seu símbolo mais antigo e mais representativo, o esquadro e o compasso, unidos, é por todos prontamente reconhecido, até mesmo pelos profanos.

Em face da importância que se reveste para o Maçom, o símbolo do Esquadro-Compasso, antes de avançarmos propriamente no conceito de Justiça para as sociedades modernas e profanas, façamos uma breve reflexão sobre o significado esotérico deste antigo símbolo para os Maçons, Ora vejamos:
Para o Maçom, o Compasso simboliza a espiritualidade e o conhecimento humano. Pelo que a sua posição sobre o Livro da Lei Sagrada, varia em conformidade com o Grau dos trabalhos em Loja. Por sua vez, a abertura deste indica o nível do conhecimento humano, sendo esta limitada ao máximo de 90º, isto é a ¼ do conhecimento da humanidade. Porém, um símbolo tem várias interpretações, se assim não fosse, não seria um verdadeiro símbolo, por esta razão, o Compasso pode ser entendido ainda, como sendo o Símbolo da Justiça, com o qual devem ser medidos todos os actos humanos. Este símbolo simboliza também, a exactidão com que se aplica a Justiça maçónica. Aliás, é pelo simbolismo da exactidão, que o Compasso ainda pode ser visto como sendo o Símbolo da imparcialidade e da infalibilidade do Todo-Poderoso.
Quanto ao Esquadro, é o primeiro instrumento passivo e companheiro por excelência do Compasso. Com ele traçamos o ângulo recto, por conseguinte, com ele desenhar as mais variadas formas geométricas. Razão porque é visto como sendo o símbolo, por excelência, da rectidão e perfeição. Por esta razão, também é a primeira das chamadas Jóias Móveis de uma Loja, constituindo-se na Jóia do seu Venerável Mestre, muito justamente, uma vez que de entre todos os Maçons duma Loja, aquele deve ser o mais justo e equitativo dos Maçons.

Por outro lado, o Esquadro, ao contrário do Compasso, representa a matéria, pelo que numa Loja a trabalhar no grau de Aprendiz, o Esquadro é colocado sobre o Compasso, pois neste grau, ainda predomina a Matéria sobre o Espírito. Ora, como é do conhecimento dos Maçons e, de harmonia com o já referido, o posicionamento do Esquadro e do Compasso varia de acordo com o grau dos trabalhos duma Loja, nomeadamente: no grau de Aprendiz, ambas as pontas do compasso estão escondidas pelo Esquadro. No grau de Companheiro uma ponta do Compasso é revelada, mostrando que a viagem deverá continuar até alcançar o completo entendimento que a Maçonaria pode oferecer. No grau de Mestre, ambas as pontas do Compasso são reveladas para que o espírito possa circundar o mistério do centro.

O conceito de Justiça para a sociedade profana, não é muito diferente do conceito da sociedade maçónica, uma vez que para esta sociedade, significa o princípio universal de correcção dos desvios comportamentais. Na verdade, a Justiça para estas sociedades, baseia-se em princípios que estão na Natureza e nos Céus, uma vez que decorrem do princípio fundamental que rege o cosmos: o princípio da evolução. Pelo que podemos constatar, muitas vezes, que neste mundo fascinante da Via Láctea, as leis naturais impõem provações a quem pratica o mal ao próximo e à Natureza, que nos levam a crer que são o justo castigo pelo mal praticado.
Quanto à Justiça que é praticada na sociedade profana, esta não é mais do que a aplicação dum sistema de normas criado pelo homem, que pretende racionalizar a vida em sociedade, de modo que sendo a vida, em si, um impulso vital, este conjunto de normas contribua para a compatibilização da vida em sociedade, tornando-a racional e harmoniosa.

Tal como o símbolo da sociedade Maçónica, o Esquadro-Compasso, também a sociedade profana possui um antigo símbolo que representa a Justiça, uma balança, que tal como o Esquadro, simboliza a exactidão do peso do veredictum, e ainda, por uma mulher de olhos vendados, com uma espada erguida na mão direita, que simboliza o juiz que com o seu veredictum julga rectamente, sem parcialidade e nem preconceitos, sem ver a quem, para não ser inclinado pelo coração a desviar-se da verdade e do direito. E, por sua vez, a espada, que representar o justo castigo a aplicar à falta cometida.

Todavia, apesar do simbolismo de rectidão e de justeza deste ícone, a Justiça nesta sociedade, não raras vezes, é manchada pela corrupção, pelos privilégios e pelas desigualdades sociais, levando a Justiça a penalizar os discriminados, pobres e excluídos desta sociedade, os quais pela reparação de um mal, acabam por sofrer um outro ainda maior, que é a injustiça. E, tudo porque o homem redige a história e, por conseguinte, redige a sua própria Justiça. E, sendo o Homem uma obra imperfeita e inacabada, a sua Justiça enferma da sua imperfeição. Contudo, a fim de evitar abusos, atropelos e injustiças ainda maiores, numa sociedade organizada e moderna, a Justiça emana das constituições. Porém, a Justiça de muitas dessas sociedades, ditas modernas, ainda é considerada como sendo: “o direito do mais forte”, “o poder da classe dominante”, ” a constante vontade de dar a cada um o que é seu”, e “a virtude na observação de preceitos divinos”. Aliás, nesta última concepção de Justiça, assinale-se embora espúria, a cínica afirmação de certas religiões necessitarem fazer ameaças e decretar penas horripilantes aos faltosos do seu direito, somente para com estas conterem a revolta das massas injustiçadas e oprimidas.

Apesar de nas sociedades humanas haver variadas formas de se fazer Justiça, que vai até ao extremo de se retirar a vida a um ser Humano, na sua plenitude, esta irradia-se pura da sua única e magistral fonte. A Constituição Suprema, concepção inimaginável, cujos princípios brilham nos astros e iluminam o Universo. Força sublime que Impõe as leis que regem a Natureza, a Vida, o movimento progressivo da matéria e do espírito. Leis que estão escritas nas galáxias, no cosmos, pela Inteligência Superior Omnipresente.

Quanto à Justiça que é praticada na sociedade de que fazemos parte integrante, a qual formalmente é o nosso País, Portugal, a igualdade perante a Justiça está-nos assegurada pelo 13º Artigo da Constituição da República Portuguesa, o qual tem a seguinte redacção:
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Todavia, apesar da nossa Constituição ser uma das mais evoluídas, e das mais arrojadas Constituições do mundo. E, garantir a igualdade dos cidadãos perante a Justiça, o que é um facto indesmentível é que essa igualdade não existe, uma vez que hoje está bem claro, que tratar “como iguais” sujeitos económica e socialmente em desvantagem, é uma farsa e uma mera utopia, dado que este termo tolera e mascara a desigualdade e a injustiça que a Justiça esconde. Pois, de todos é sabido, que os pobres têm um acesso muito precário e restrito a esta, uma vez que carecem de recursos para contratar bons advogados e pagar as indispensáveis custas judiciais, como não têm dinheiro para os sucessivos recursos a Instâncias Judiciárias Superiores que a Lei possibilita. Quanto ao patrocínio gratuito que é assegurado aos mais desfavorecidos, pelo Estado, nem tão pouco é bom contarmos com ele, dado que este patrocínio tem vindo a revelar uma alarmante deficiência e uma preocupante ineficácia, essencialmente porque na maioria das vezes, os causídicos nomeados para defesa dos pobres, não têm grande experiência, nem têm grande motivação para o fazerem e, muitas vezes, nem tão pouco conhecimentos compatíveis aos dos seus opositores. Pelo que o problema fundamental em relação à Justiça, e em particular, aos direitos do Homem, hoje, não é tanto o de os justificar, mas sim o de os proteger. Deste modo, não se trata de um problema de âmbito filosófico, mas antes, um problema político.

Apesar desta contingência, está consagrado e enraizado na cultura portuguesa os actuais princípios jurídicos ocidentais, que derivam das revoluções liberais do século XVIII, em especial da Revolução Francesa, da Revolução Liberal Inglesa e do movimento de Independência das colónias americanas, segundo o qual, todos aqueles que estão vinculados a um determinado Estado, são iguais perante a lei. Deste princípio deriva o pressuposto que em todos os Estados Democráticos de Direito contemporâneos exista a igualdade e a liberdade real e efectiva dos seus cidadãos, começando pela protecção jurisdicional dos direitos humanos.

Contudo, apesar de Portugal acompanhar os princípios da cultura jurídica ocidental, a sua realidade jurídica não tem sido um bom exemplo para retirarmos as mais-valias das Constituições modernas para a igualdade e protecção dos cidadãos. Façamos votos que num futuro próximo, consigamos atingir o que a comunidade internacional define e pretende como Justiça, que se resume: a um recurso rápido, simples e efectivo a esta, perante juízes e tribunais competentes, ao mesmo tempo que impõe aos Estados, que o direito de toda pessoa humana, seja protegido contra actos que violem os seus direitos fundamentais, mesmo quando tal violação seja cometida por pessoas que estejam actuando no exercício das suas funções oficiais.

Na história moderna, ainda podemos verificar nas suas páginas, que impera a violência, a intolerância, a tirania, o terror, a tragédia, a guerra, e todo o género de catástrofes e arbítrios. Por esta razão, a Justiça ainda se apresenta injusta em sistemas de opressão e de tortura. Mesmo em Estados chamados Democráticos, a Justiça parece muitas vezes estar adormecida. Contudo, esta somente será vitaminada e purificada, através de valores que compõem a dignidade humana. Não só a honra, e a moral, que são virtudes estóicas; mas também por ideais do epicurismo, como sejam a liberdade, o progresso, e a felicidade do Homem. Pois, a história, e a par desta a Justiça, tendem para o Bem, porque são geradas pelos princípios da Constituição Magna do Universo, apenas dependendo do grau de evolução em que se encontra a humanidade.

Assim apesar do Homem ainda se encontrar longe da quarta era da humanidade, o seu estágio no terceiro milénio é de esperança e de redenção. Ao podermos ler num céu limpo, qual um Livro Sagrado, o que está escrito à luz das estrelas, hosanas! Que há mais de dois mil anos, começou o porvir com a anunciação da boa nova da Fraternidade entre os Homens!

A Verdade na Mentira ou a Mentira na Verdade

(...) Então Pilatos regressou ao Pretório, chamou Jesus e disse-lhe: “És tu o rei dos Judeus?” Jesus respondeu: “ É por ti mesmo que o dizes ou foram outros que to disseram de mim?” Pilatos respondeu: “Será que eu sou judeu? Os da tua nação e os sumos sacerdotes é que te puseram nas minhas mãos. Que fizeste? “Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente teria combatido para que eu não fosse entregue aos Judeus. Mas o meu reino não é daqui.” – “Então tu és rei” disse-lhe Pilatos. –“ Tu o dizes, sou rei”, respondeu Jesus, e só nasci e só vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz.”
Pilatos Perguntou-lhe: “ O que é a verdade?”

Novo Testamento, A Paixão segundo S. João, XVIII, XIX



O que é a verdade? Haverá uma verdade única, intangível e absoluta? Será que existe uma força cósmica inteligente que conheça a verdade integral, que conheça o saber sem lacunas sobre toda e qualquer existência de vida no Universo? Não sabemos! Embora, ao longo dos milénios muitas gerações de estudiosos, filósofos, místicos e religiosos se tenham debruçado sobre esta questão. E, como resultado do seu trabalho, apenas obtiveram mais antagonismo do que a harmonia, uma vez que este degenerou numa miríade de correntes de pensamento, donde não emerge uma visão clara da verdade, nem tão pouco um vislumbre desta, e muito menos uma certeza inquestionável, dado que sobre a verdade encontramos diversas correntes de pensamento, e de entre elas, destaca-se:

· A de não haver nenhuma verdade para além daquela que os nossos órgãos sensoriais podem directamente perceber, ou indirectamente, com o auxilio de instrumentos técnicos e laboratoriais.

· A de existir uma verdade que tudo abrange, mas que não está ao alcance do ser humano, porque se encontra incapacitado para a descobrir, ou para a interpretar, ou até para a assimilar.
· A de que cada qual tem a sua própria verdade, que por ser múltipla e variada, não existe uma única verdade.

· A de crer numa verdade revelada por uma religião, que se considera única e legítima, e que por essa razão, despreza todas as outras verdades, por as considerar falsas, hipócritas, ou distorcidas.

· A de que qualquer pessoa possui a verdade, desde que iniciada nas práticas secretas da agremiação a que pertence. Pois, somente através da Iniciação dessa agremiação, podem atingir níveis cada vez mais elevados de consciência sobre a existência da verdade absoluta.

Para não nos alongarmos na procura de todas estas verdades, abordemos somente a verdade revelada pela Bíblia, sobre a criação do Homem. Este sagrado livro revela-nos, que os primeiros seres humanos da Terra caíram em tentação e em pecado. Eva deu ouvidos à mentira de Satanás, e como resultado, tanto ela, como o seu companheiro, foram expulsos do Éden, por Deus. Por conseguinte, desde esse mítico e longínquo tempo, nada mudou para o Homem, uma vez que continua a acreditar mais na mentira do que na verdade que vem de Deus.

Todavia, esta revelação Bíblica levanta-nos uma pertinente questão sobre a verdade integral da criação. No que devemos nós acreditar como sendo a verdade absoluta e indiscutível para o surgimento do Homem à face da terra? Devemos antes acreditar na história do príncipe que se transformou num sapo, ou no sapo que se transformou num príncipe. Por outras palavras, devemos acreditar na teoria criacionista, que defende que um Deus criou todas as coisas no Universo, ou devemos acreditar na teoria evolucionista, que diz que tudo nele surgiu por acaso? Para cada uma destas teorias, existem cientistas afamados, prontos a defenderem cada uma delas, o que nos deixa confusos, perplexos e muito baralhados. Pois, os cientistas criacionistas afirmam, que se a vida pudesse surgir do acaso, esse acaso poderia ser demonstrado através de experiências laboratoriais, contudo, até hoje nada foi possível provar. Enquanto que os cientistas evolucionistas, como Charles Darwin, defendem que a vida surgiu nos oceanos, e evoluiu ao longo do tempo através de sucessivas transformações e modificações nos seres vivos. E, que através deste sucessivo processo, deu origem na Terra novas espécies de vida, que sobreviveram graças à Selecção Natural.

Ora bem, como homem de ciência, sei que através da homologia das estruturas de dois, ou mais organismos diferentes, podemos determinar se estas derivam, ou não, de um grupo ancestral comum. Pelo que se tomarmos como exemplo a anatomia do braço do homem, verificamos que este, a pata do cavalo, a asa do morcego, e a nadadeira da baleia, são todas elas estruturas homológicas entre si, o que nos provam que tiveram a mesma origem embriológica. Assim, deste exemplo anatómico, podemos concluir, que as mutações genéticas, a selecção natural, as diferenças de ambiente, os movimentos migratórios, e até mesmo o isolamento, concorreram ao longo do tempo para alterar e modificar os genes das populações de animais. Pelo que ao admitirmos como sendo verdade aquela que os registos fósseis nos contam sobre o aparecimento e a evolução do Homem na Terra, estamos a concordar que este surgiu à face da Terra através da evolução das espécies, e comprovadamente, que de entre todas elas, foi aquela que teve maior sucesso, uma vez que é o animal de grandes dimensões mais abundante na Terra.

Em face desta conclusão, o Homem, tal como os outros animais, recebeu da Natureza os instintos da preservação da sua espécie. Porém, esta negou-lhe os meios físicos naturais para lutar pela sua vida. Porém, em compensação armou-o com o intelecto, que desde os seus primeiros tempos, utiliza sabiamente para enganar e ludibriar os seus adversários, de corpos mais fortes e velozes, e com presas pontiagudas e cortantes, mas desprovidos de malícia, garantindo deste modo, não só a sua sobrevivência, como a sua subida aos sucessivos patamares evolucionistas da sua espécie. Contudo, ao longo dos milénios, acabou por se distanciar das suas raízes primordiais, e com este distanciamento, acabou também por se esquecer das suas origens primárias e, por conseguinte, deixou de ouvir os apelos da Natureza. Pelo que sem o saber, hoje, continua aprisionado ao seu intelecto trapaceiro e astuto.

Todavia, por ter travado durante milénios, em terreno hostil, uma luta injusta e maliciosa com os demais animais, o homem foi aperfeiçoando a sua trapaça intelectual, acabando por os vencer, um a um, até presentemente os ameaçar de completa extinção.

Aliás, não deixa de ser muito interessante observarmos o quanto Freud estava certo ao dizer, que o ser humano dito “civilizado” apenas trocou de instrumentos, abandonando os paus e as pedras, para usar a linguagem como arma sagaz para manipular o seu semelhante, com o único fim de obter para si qualquer ganho prático e vantajoso. Com este passado de ardis e trapaças, como podemos nós esperar ouvir a verdade deste ancestral mestre da mentira e do embuste? E, tanto mais que com as manhas milenarmente aprendidas, com facilidade e habilmente expressa coisa diferente do que percebe e que sente como realidade para se sentir realizado. E, tanto mais que este há muito que sabe, que o perigo de ser punido pelo seu acto trapaceiro é muito reduzido, uma vez que só será castigado em consideração aos fins e objectivos para que usou a falsa verdade, o que facilmente torneia e manobra. Por conseguinte, a verdade e a mentira, por si só, nada significam de bem ou de mal. Aliás, este até considera que os indivíduos com inata dificuldade para proferirem a não verdade, socialmente são uns ingénuos e pouco habilidosos para o convívio social, ou, como modernamente hoje se diz: não têm “jogo de cintura”.

Todavia, se considerarmos todas as formas de não se dizer a verdade, que vai desde a mentira convencional de dizermos “Bom Dia”, sem que necessariamente o desejemos, passando pela mentira humanitária de consolar um doente terminal, ou da mentira carinhosa de achar que um determinado vestuário fica muito bem na pessoa amada, ou ainda o de fazer com que as crianças acreditem na existência do Pai Natal, ou até mesmo, o de mandar recado telefónico de que se está ausente, quando na realidade se está ao lado, ou até por razões económicas, não se dizer a verdade sobre o património, quando o prejudicado for o fisco, ou até mesmo a mentira por omissão, que também é uma forma de dissimular a verdade, verificamos que de harmonia com as pressões que o sucesso na vida em sociedade exige, raramente o Homem diz a verdade. Claro, que para além deste tipo de inverdades, ainda há a falsa verdade como arma para a satisfação de interesses indirectos e vinganças, como seja por exemplo, a de alimentar falsos rumores e calúnias, com o único fim de diminuir, comprometer e destruir adversários.

Na verdade, a mentira é um recurso de uso fácil, que não necessita de grande esforço, nem de grandes penúrias, ainda que haja o permanente risco de se ser descoberto, como foi referido, esta nunca traz consequências de maior ao seu autor. Portanto, nada que um teatral e eloquente discurso não remedeie e desfaça o pequeno acidente. Aliás, na política é costumeiro não se dizer a verdade. E, há muito tempo que este uso é autorizado e aceite pelos cidadãos, pois nas reeleições de candidatos mentirosos, não é costume os cidadãos penalizarem quem tenha feito falsas promessas. Platão comparou a aplicação da mentira na política, ao uso que o médico faz da verdade e do veneno para fins terapêuticos. Portanto, em política, a mentira tanto é normal, como até está institucionalizada, apenas se lhe atribui um outro nome, talvez para não ferir algumas susceptibilidades, que é o de linguagem diplomática, a qual não deixa de ser um idioma hipócrita, uma vez que é o idioma com que habitualmente os chefes de Estado falam uma coisa querendo dizer outra.

Por outro lado, para Freud, o lobo e o cordeiro andam sempre juntos, uma vez que o inconsciente que carrega o desejo, não conhece caminhos morais ou amorais que impeçam a concretização do pensamento na acção. É como se Deus não existe sem o Diabo, e ambos estivessem nas duas faces de uma mesma moeda. Pelo que no mesmo seguimento deste raciocínio, a mentira e a verdade constituem um par dialéctico sempre presente em qualquer alocução do Homem. E, como a mentira se embasa na intencionalidade, esta pode ser sempre desculpada.

Claro, que há mentiras e mentiras! Umas podem ser classificadas como singelas e acanhadas, como é o caso de uma mentira tosca e pueril, por exemplo da pessoa que é casada, mas afirma o contrário, com o propósito de facilitar uma conquista amorosa, enquanto que outras são de proporções inimagináveis, por exemplo, o falso relatório sobre a existência de um arsenal de armas de destruição em massa no Iraque, para justificar uma guerra igualmente de destruição em massa. Através da extensão destes dois exemplos, podemos concluir, que na vida humana de hoje, nada permanece livre da ausência da verdade, tanto nos regimes políticos, nas profissões, nas religiões, nas ciências, nas artes e em todas as actividades e relacionamentos humanos. Vivemos sob o império da mentira e da falsidade. Mentem entre si pais e filhos, professores e alunos, patrões e empregados, governantes e governados. A mentira é o esteio da vida moderna, a base dos relacionamentos familiares, profissionais e públicos. É a primeira lição que uma criança aprende, ainda no berço, e depois, a gatinhar, aperfeiçoa-a, ao mesmo tempo que aprende a abstrair-se da realidade através dos devaneios, das fantasias, das lendas, e das fábulas. E, muito mais tarde, recordando a sua infância, o Homem passa a ter uma propensão invencível para se deixar enganar, uma vez que fica como que enfeitiçado de felicidade, quando lhe narram lendas e contos épicos, tidos como verdadeiros. A própria literatura, o teatro e o cinema alimenta neste esse seu desenfreado desejo de engano e de mentira. Pelo que, hoje, muito dificilmente este consegue distinguir o que é verdade e o que é mentira. E, deste modo, a inverdade passou a estar sempre presente nas relações dos Homens. Aliás, o que se poderia esperar dos amantes do Pinóquio, e daqueles que têm a mentira como sustentáculo ancestral da sua sobrevivência?

A Tolerância e a Compreensão

“A verdadeira tolerância é muitas vezes penosa: permitir que se exprimam e se expandam ideias que nos parecem perniciosas; ver o adversário prosseguir no seu caminho sem encontrar obstáculos, é difícil e desencorajante. A indiferença não passa de falsa tolerância e é característica de épocas destituídas quer de uma filosofia clara de vida quer de bases sólidas na sua tradição moral.”

Sir Richard Winn Livingstone, Reino Unido,
A Tolerância na Teoria e na Prática, 1954

“A paz do mundo tal como a paz da comunidade não exige que cada homem ame o seu próximo - apenas exige que os homens vivam em conjunto numa tolerância mútua e que aceitem submeter os seus diferendos a um regulamento justo e pacífico.”

John F. Kennedy, presidente dos Estados Unidos da América,
10 de Junho de 1963

“Durante a minha vida nunca pude suportar a palavra “tolerância”, tolerar os outros, suportá-los mesmo, é primeiro que tudo jactância e depois este termo tem uma nuance de fraqueza, tem qualquer coisa de mole.”

Theodor Heuss, República Federal da Alemanha,
Discurso, 1959

“A tolerância sempre foi necessária à felicidade e à prosperidade da raça humana. Hoje ela é necessária à sua sobrevivência”.

Sir Richard Winn Livinstone, Reino Unido,
Tolerância na Teoria e na Prática, 1954


“O Rei [Filipe II de Espanha] está errado se acredita que o povo deste país vai tolerar indefinidamente os éditos sangrentos contra os heréticos. Embora eu seja totalmente dedicado à religião católica romana, não posso aprovar que os monarcas se arroguem um direito de controlo sobre a consciência dos seus súbitos e os privem de liberdade religiosa”.

Guilherme de Nassau, dito O Taciturno, Holanda,
Discurso pronunciado no Conselho de Estado, 1564


“A natureza diz a todos os homens. Fiz todos vós nascerem fracos e ignorantes, para vegetarem alguns minutos na Terra e adubarem-na com vossos cadáveres. Já que sois fracos, auxiliai-vos; já que sois ignorantes, instrui-vos e tolerai-vos”

Voltaire, tratado sobre a tolerância

Sempre que alguém afirma que dois e dois são quatro e um ignorante lhe responde que dois e dois são seis, surge um terceiro que, em prol da tolerância e do diálogo, acaba por concluir que dois e dois são cinco...
José Prat


Entre a “tolerância” e a “estupidez” existe uma linha muito ténue a separá-las!

Filipe Malta Romeiras
Mestre Maçom da GLRP e Templário convicto, hoje, no Oriente Eterno



Para definirmos o que significa tolerância, comecemos por recorrer aos dicionários das línguas latinas e, verificamos que todos eles revelam a ideologia da cultura europeia, a qual tem como projecto a universalidade e a homogeneidade da sociedade, pela dominação das outras culturas. Por exemplo, no Dicionário da Porto-Editora, “tolerância” está definida como sendo: a “acção de admitir sem reacção defensiva; atitude que consiste em deixar aos outros a liberdade de exprimirem opiniões que julgamos falsas e de viverem em conformidade com tais opiniões; condescendência; indulgência; paciência, aptidão do organismo para suportar certos medicamentos”. Ou seja, nesta acepção, “tolerância” pressupõe a existência de uma relação humana entre desiguais, em que o superior faz concessões ao inferior. Mas, para descortinarmos melhor o seu conceito, peguemos na última definição que o referido dicionário faz sobre “tolerância”. Na medicina, tolerar significa a aptidão dum organismo para suportar a acção de um medicamento, ou de um agente químico, ou físico, ou seja: é a capacidade para suportar, ou para aguentar. Pois pressupõe que o doente suporta um tratamento indesejado quando aquele seja extremamente necessário para a sua saúde, uma vez que aceita passar por uma situação desagradável e incómoda, se esse for o único meio para atingir esse bem maior. Pelo que desta breve reflexão podemos retirar, que os doentes toleram de diferentes modos os microrganismos: alguns adoecem e morrem, e a outros nada ocorre. Pelo que desta constatação, retiramos que o significado de “tolerância” corresponde ao limite da aceitabilidade. Por conseguinte, no foro social, corresponderá ao intervalo da aceitabilidade da nossa individualidade. E, com respeito aos materiais e a outros inertes, corresponderá ao limite da aceitabilidade entre o que está definido nas características exactas daqueles e ao esperado.
Assim, tal como nem todos os organismos vivos suportam os medicamentos, e não se toleram desvios ao que está estabelecido nas normas para os materiais e outros afins, também socialmente não se aceitam atentados aos nossos valores e aos nossos princípios. Razão, porque os pensamentos dos notáveis sobre a “tolerância” são aparentemente politicamente incorrectos.

Na verdade, é muito frequente apelarmos à “tolerância” por tudo, e por nada, talvez porque seja politicamente correcto anunciá-la, uma vez que tal apelo fica bem em qualquer discurso, pois soa a moderno e evita muitas discussões e aborrecimentos. No entanto, porque algumas personalidades históricas e para nós de referência, defenderam pontos de vista politicamente não correctos, devemos reflectir nas razões porque o fizeram. E, para isso, comecemos por nos interrogar: ao sermos tolerantes, estamos a reflectir um sinal civilizacional positivo? Em consciência, tenho as minhas dúvidas, uma vez que ao sermos tolerantes, para além de estarmos a pactuar com o comodismo e com a indiferença, estamos também a fechar os olhos à ignorância e à hipocrisia. É o eterno adiar das questões, sem nos comprometermos com resoluções sempre embaraçosas e impertinentes. Aliás, se reflectirmos com a profundidade e a sinceridade que o assunto merece, verificamos que a “tolerância” não pode ser considerada um ideal civilizacional, porque não é o Amor. Antes pelo contrário, este ambíguo comportamento situa-se a meio caminho entre a Justiça e o Amor, uma vez que se exige o respeito daquele de quem não se gosta, e muitas vezes até se detesta e odeia. Portanto, a “tolerância” é uma meia virtude, que tem a mais valia de impor a não-violência sobre o próximo, que no entanto se aceita sob reserva ou, apenas se ignora que existe.

Na verdade, ao analisarmos “tolerância” no ponto de vista de uma relação emocional, podemos afirmar que a tolerância cria uma relação de aceitação perversa entre o tolerante e o tolerado, uma vez que quando se tolera alguém, não temos a intenção de confraternizar com esse alguém, nem tão pouco temos a intenção de nos reconciliar com ele, e muito menos de o amar, uma vez que só toleramos o que não compreendemos, ou simplesmente, o que reprovamos. Pelo que ao tolerarmos, estamos somente a contribuir para que haja um permanente conflito entre a liberdade e a verdade. É como se estivéssemos permanentemente entre a guerra e a paz, ou, entre o ódio e o amor.

Continuando na senda reflectiva das razões que levaram personagens históricas e da nossa referência a tecerem definições à “tolerância” politicamente incómodas, verificamos que as causas poderiam estar relacionadas com algumas realidades que podem ser observadas na sociedade humana moderna, uma vez que verificamos que nestas sociedades, em nome do crescimento económico e do bem-estar social, as autoridades passaram a actuar em nome dos cidadãos, que por sua vez, passaram a tolerar os seus governos, os quais passaram a tolerar as suas oposições nos limites fixados pelas autoridades, o que atesta a sua volubilidade, dado que dependem muito da autoridade que for instituída. Aliás, tal fragilidade vem de encontro à tese defendida por Freud, o qual advogava para estas, a necessidade de se transformarem até alcançarem o império do Poder. Ou seja, neste modelo de sociedade, é pressuposto que a maioria mais violenta detenha o Poder, o Direito, ao mesmo tempo que dita os limites da tolerância, o que nos leva a parafrasear Platão: “a justiça é o interesse dos mais fortes”. E, sendo assim, o limite da tolerância é determinado pelo interesse do mais forte.

Através desta breve reflexão, retiramos, que ao sermos tolerantes a ideias obtusas e autocráticas, podemos estar a ser absurdos e incongruentes com os nossos ideais, quando deveríamos ser verdadeiros com os nossos princípios e com os nossos valores. E tanto mais, que a “tolerância” a ideias obtusas e disparatadas, só pode ser comparável com a passividade que um pai possa demonstrar ao não corrigir de imediato um disparate do seu filho, em idade escolar. Pois, a ausência de uma pronta correcção, catalogá-lo-ia como não sendo um bom pai, nem tão pouco um bom educador; ora vejamos um exemplo: se o filho um dia abordasse o pai, e lhe dissesse com a maior das suas convicções, que a Terra era quadrada, e se aquele ao abrigo da “tolerância” e da permissividade, não o corrigisse de imediato, estaria a ser um bom pai? Claro que não! Uma vez que estava a ser permissivo com a sua manifesta ignorância. Ora, então porque razão devemos ser nós tolerantes a ideias absurdas, disparatadas e contrárias aos nossos princípios e valores? Porque não devemos ser verdadeiros connosco próprios?

Claro, que existem algumas situações na vida, que apesar de nos parecerem absurdas e disparatadas, levam-nos a ignorá-las e a sermos passíveis para com elas, somente porque estamos convictos que a nossa passividade contribui para um bem comum, ou para uma sociedade mais harmoniosa, valores que são mais altos do que a própria verdade.

Porém, dada a complexidade da nossa individualidade, o nosso limite para aceitarmos estes “grandes sapos” é muito variável e flexível. Pois, podemos tolerar algo pela manhã, mas se o mesmo assunto nos for apresentado à tarde, pode passar dos limites da nossa aceitação, e como resultado, explodimos de indignação e de repulsa. Aliás, como seres concebidos à imagem e semelhança de Deus, estamos somente a seguir o seu exemplo, pois também Ele mostrou ter limites para a sua tolerância e aceitação, dado que é do conhecimento geral que no Paraíso Deus estava tolerante a qualquer acto dos humanos. Porém, só tinha imposto a estes uma proibição, o de não desejar o fruto proibido, que seria portanto o limite da Sua tolerância, e como aqueles desrespeitaram a norma que lhes fora imposta, Deus castigou de imediato o ser humano por tal pecado, com a sua expulsão do Éden, e desde então a morte passou a governar a vida da humanidade. Ou seja, uma das partes, aquela que tinha maior poder decidiu o que era possível tolerar!

Assim, por consequência da complexidade da individualidade do Homem, interroguemo-nos mais uma vez: o que leva duas, ou mais pessoas a entrarem em discórdia? A resposta parece ser simples, uma vez que a nossa intuição endereça-a para a invasão do direito alheio; para o ultrapassar do limite da “tolerância”; para a incapacidade de compreensão mútua, ou própria; para a falta de empatia; para a nossa própria natureza, ou para o nosso próprio temperamento e imperfeição. Pelo que para ultrapassarmos estas imperfeições e condicionalismos, temos que ter Sabedoria para vivermos e comunicarmos com os outros.

Sendo a cultura popular uma grande escola da vida, recordemos alguns dos seus ensinamentos: um dos provérbios populares diz-nos que "errar é humano, perdoar é divino". Portanto, este provérbio ensina-nos que o perdão absoluto é divino. No entanto, apesar da sua Divindade, podemos ter o ideal de perdoar, mas nem sempre o conseguimos, e para tal incapacidade, outro provérbio faz referência a esta nossa imperfeição, e diz-nos que "Perdoar, eu perdoo; mas esquecer, não esqueço...". Na verdade, toda a dificuldade em perdoar manifesta-se porque abre uma porta honrosa para o agressor, o qual não precisa gastar tempo a se justificar, nem tão pouco tem necessidade em se humilhar em público. E tanto mais que existem muitos Homens capazes de se desculparem e de justificarem os seus actos, mas que ficariam envergonhados se tivessem que manifestar desculpas ou justificações em voz alta aos outros.

Por outro lado, tolerância e compreensão podem incorrectamente confundir-se, o que não deixa de ser um disparate, uma vez que a compreensão não pode ser confundida nem com a “tolerância”, nem tão pouco com a cumplicidade no erro, uma vez que a “tolerância” está associada à indiferença, e a cumplicidade está associada ao desejo de ser solidário com a pessoa que errou e que está disposta a ajudar para reverter a situação, na base de que, tal como o bom vinho, o Homem melhora com o tempo. Aliás, assim nos diz o provérbio: "O tempo é o melhor remédio".

Em suma, numa sociedade onde tudo é socialmente aceite, acaba por tudo ser tolerado. E, nestas condições, as pessoas perdem a noção do que está certo ou do que está errado. A inteligência deixa de discernir, e a vontade fica fraca para agir. As pessoas passam a prezar o que lhes é caro, e sendo o dinheiro caro a todos, tornam-se materialistas ao mesmo tempo que se tornam pobres de ideais e de valores, o que justifica a existência de um outro provérbio: “quem não vive como pensa, acaba a pensar como vive”.

Contudo, só quem se conhece a si mesmo, e tem uma visão culta e moderna da natureza humana, pode ser tolerante na acepção do seu melhor conceito. E, para bem do Homem, é desejável que a tolerância permaneça nos seus corações. Pois, quando as nossas razões são empoladas, quando os nossos maus humores são levados muito a sério, quando não se reconhece a relatividade das nossas ideias, quando nos julgamos superiores aos outros, ou com uma cultura acima dos demais, ou com um Deus maior, ou até com outros predicados que julgamos ser superiores aos outros, tornamo-nos intolerantes, e a intolerância torna-se a causa geradora de muitos conflitos e de muitas guerras.

Todavia, não devemos reprovar, nem devemos ignorar que a intolerância a ideias pode, e deve servir de catalisador ao desenvolvimento e ao aperfeiçoamento do Homem, uma vez que a intolerância não tem nada a ver com falta de respeito, com a arrogância ou com o egoísmo. Tem apenas a ver com o facto de sermos únicos, diferentes e com ideias próprias. E, tal como o oposto do amor não é o ódio, mas sim a indiferença, o oposto da tolerância não é a intolerância, mas sim o respeito às diferenças.

Por outro lado, sendo o Homem na imensidão do tempo e do espaço deus em potência, as suas diferenças culturais, étnicas ou raciais tornam-se insignificantes diante da sua identidade como ser infinito e ao mesmo tempo efémero, logo não há razão para que seja intolerante a estas diferenças, apenas há razões para ser intolerante a ideias perniciosas, autocráticas e obscurantistas.

O Poder do Bem e o Caminho do Amor

“- Mestre, qual é o maior mandamento da lei?
Jesus respondeu-lhe: «Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua Alma e com todo o teu pensamento.»
É o primeiro e o maior de todos os mandamentos.
Eis o segundo que lhe é semelhante: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo.»
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.

Novo Testamento, S. Mateus, XXII

O Mestre disse: “ O sábio ama todos os Homens e não tem parcialidade por ninguém. O Homem comum é parcial e não ama todos os Homens”.

Confúcio, 551?-479? a. C., China, Conversações

A partir de hoje o meu coração pode tomar todas as formas,
Um prado para as gazelas, um claustro para os monges,
Um santuário para os ídolos, uma Caaba para os peregrinos,
As tábuas da Torah e o livro do Alcorão.
Pratico uma religião de Amor: seja qual for o ponto
Para onde se dirija a caravana do Amor,
Aí estão a minha religião e a minha fé.

Muhyi al-Din b. Arabi, 1165-1240, Andaluzia,
Turjumãn al-Aswãq

A Santidade suprema é feita de amor, de bondade e de tolerância. O ódio, a vingança e a dureza decorrem do esquecimento da palavra de Deus e do empalidecer do brilho da sua santidade.
Rabbi Yzhak, Há-Cohen Kook, Mussar Há-Kodesh, 1938

Muitas são as mensagens de Homens divinos, porque cada Homem é concebido para ser protagonista de uma grande história de amor, que começa nos braços ternos e amorosos da sua mãe, que o protege, o acarinha e o ampara desde o seu gatinhar na senda do saber até aos seus primeiros passos no conhecimento da natureza e dos objectos que o rodeiam. Depois desta, a sua história de amor tem continuidade à volta da sua família e dos seus amigos mais próximos, ao mesmo tempo que desenvolve também o amor por coisas abstractas e subtis, tais como a justiça e a verdade. Porém, à medida que o Homem vai amadurecendo o seu intelecto e o conhecimento das coisas do mundo que o rodeiam, aquele vai sendo conduzido ao amor por valores morais, tais como a tolerância, o perdão e a solidariedade. E, nesta sinuosa vereda de valores caminhará ao longo da sua vida, até alcançar o perfeito conhecimento do seu próprio espírito, onde reside o puro amor. E aí, nessa câmara de reflexão divina, o Homem terá a oportunidade de descortinar entre o negrume da matéria que o envolve, que a espiritualidade é a chave para a redescoberta do Caminho do Amor, uma vez que é através desta, que aquele pode encontrar com a mesma certeza que o acompanhou na infância, de que é muito querido e amados por todos aqueles que o acompanham, ou que consigo convivam, ou se relacionem. Por conseguinte, depois do Homem muito caminhar na procura da luz, podemos descortinar por baixo do seu olhar cansado e encovado, a inocência de outros tempos a reflectir dos seus olhos, essencialmente, porque o tempo não pode macular a sua essência, uma vez que esta é uma parcela do seu próprio espírito eterno.

Na verdade, sendo o Amor uma parcela do espírito divino do Homem, este reunifica-o com a vida e com todas as possibilidades contidas e geradas por esta. E, o Bem, que para além de sintonizar a liberdade com a responsabilidade, impõe que aquele caminhe com firmeza, com honra e virtude na senda da verdade, da solidariedade, e da tolerância, ao mesmo tempo que o faz compreender, que este belo planeta azul é apenas um estágio da sua evolução espiritual.

Assim, a verdadeira comunhão do “Bem” e do “Amor” faz-se de espírito a espírito, e de coração a coração. Aliás, esta maneira muito humana de difundir o Amor e o Bem, é uma condição essencial e indispensável para que o Homem venha a viver na era dourada, ou seja, na quarta era, onde há muito se profetiza, que este viverá numa total harmonia com a humanidade. Pelo que somente através do Caminho do Amor, o Homem conseguirá alcançar esta era. Mas, para isso terá que ser capaz de edificar o novo dentro do velho, pois só desse modo terá sucesso na sua evolução cósmica. É certo que a sua caminhada profética está facilitada pela Esperança, pela Solidariedade, e pela certeza que este tem de que nessa mítica nova era não haverá violência, intolerância e obscurantismo. Pelo que adivinha que nesse tempo divino, a fome e as guerras entre os povos, passarão a ser apenas memórias de um passado distante. Todavia, para que esta esperançosa era dourada venha a ser uma realidade para a humanidade, compete ao Homem de hoje ajudar a Fénix a elevar-se das cinzas, para que possa vir a planar nesses futuros brilhantes céus cósmicos. Para que a Fénix renasça e voe alto, ajudemos a acelerar o despertar espiritual que nos conduzirá a essa mítica e maravilhosa era, com a prática sistemática do Bem e a opção por sempre caminhar na senda do verdadeiro Amor. Pois só deste modo, um dia, o Homem será deus em potência e em acção.

Na verdade, hoje existem alguns indicadores que nos informam, que ainda não estamos prontos para viver nessa nova era. Porém, outros indicadores existem, que nos dão esperança e confiança, uma vez que nos indicam que muitos de nós estão a dar o seu melhor para que a humanidade se liberte de continuar a lutar entre si, e de obter as suas riquezas e o seu bem-estar à custa do empobrecimento do próximo e da destruição deste bonito planeta azul, que nos serve de nave inter-Galáctica nesta longa viagem da humanidade pelo espaço sideral. Sem dúvida que este é o ideal dos cavaleiros da Luz, pois só através deste podemos alcançar o ideal superior da humanidade, que é a consciência plena da sua igualdade, e do permanente diálogo entre o seu mundo interior e exterior.

Portanto, para que a visão profética se materialize numa realidade, o Homem terá que ter a capacidade de descortinar a bondade em cada espírito que o rodeia, e tem que nele plenamente confiar. Pois, mesmo Homens considerados rudes, maus e de espírito negro, possuem a bondade no seu interior, uma vez que esta é uma parcela do seu espírito eterno, cuja essência reside em qualquer Eu. Não importa quão profundamente se esconda nesses espíritos mergulhados nas trevas, basta sabermos que esta neles se esconde, porque ao termos conhecimento da sua existência, utilizaremos o melhor de nós para a procurar e a resgatar das trevas.

Na verdade, para que nos predisponhamos a acreditar na existência da bondade em qualquer Eu, é importante sabermos que existe dentro do nosso Eu, uma força mágica e sublime chamada Amor, a qual sendo uma parcela do nosso espírito eterno, não tem forma, não tem cor, não tem raça, não tem credo, nem tem nenhum preconceito, mas que pela sua fácil propagação na humanidade, acaba por ter um supremo poder de transformar a existência de cada Homem. Pelo que só por si, contribui para que este possa viver na potencialidade e na plenitude da Esperança, e da Serenidade. Aliás, o Poder do Amor é o responsável por vivificar todo o nosso ser, por reanimar todas as nossas forças, e até por aliviar todas as nossas tensões existenciais. Porque o Amor tem a magia de curar no Homem a sua tristeza, a sua inimizade, a sua inveja e todos os males que minam, colocando-o em harmonia com o mundo e consigo próprio. Aliás, muitos médicos concordam que por detrás de muitas patologias de muitos Homens, está a ausência de amor por si próprio e pelo próximo. Pelo que podemos atribuir, que é pelo desconhecimento do Poder do Bem e do Caminho do Amor, que muitas vezes o Homem é conduzido à tirania, e à violência desenfreada com os seus iguais.

Em suma, a Força do Amor impele o Homem para frente, indicando-lhe qual é o melhor caminho que aquele deve seguir. Porque o Amor para além de ser o fluido do Bem, o construtor da paz, e o agenciador da segurança, é também aquele que molda o carácter do Homem, esculpe a sua firmeza moral, alumia o seu caminho, e evidência a sua Sabedoria para a essencialidade da vida. Pois, é com Amor e com Sabedoria, que o Homem obtêm a força capaz para se elevar ao plano cósmico, ao mesmo tempo que o poupa nas angústias, nas tragédias e nos seus fracassos. E tanto mais, que o Homem espiritualizado é honrado, é sábio e é entendido nas ciências da vida. E, porque o Homem está cheio de Amor para oferecer, está sempre disponível para ajudar o próximo.

Por outro lado, muitos Homens confundem o amor espiritual com o amor meramente carnal. Amar não é viver apenas uma aventura. Exemplos desse tipo de amor estão grandes obras literárias cheias, lá onde o amor é confundido com a simples paixão e devaneio. Só o verdadeiro amor liberta e traz a Felicidade ao Homem. Contudo, esta confusão de Amor tem um fundo de aceitabilidade e alguma razão de ser, uma vez que o templo natural da divindade é o nosso próprio corpo. Assim, enquanto um homem honrar a divindade que existe dentro do Eu da sua mulher, e ela honrar o deus que existe dentro do Eu do seu homem, eles criarão uma energia divina de força extrema, que limpará o corpo e a mente transformando a sua consciência, ao mesmo tempo que criam um estado de iluminação para os dois. É o princípio soberano da dualidade, que aponta para si própria. É a bipolaridade por excelência, que juntamente com a unidade, se transforma no “Princípio Primordial” de Pitágoras.

Na verdade, tudo quanto existe é dual em essência, e tudo quanto se manifesta é trino. Aliás, a unidade de ambos, positivo para o homem e negativo para a mulher, é a polaridade necessária para qualquer manifestação. Pois, a manifestação ocorre no ponto em que o homem e a mulher se unem, gerando o filho que representa a estabilidade e o equilíbrio. Assim, na dualidade podemos encontrar prazer e dor, enquanto que na Unidade da dualidade há Lei, que está acima do bem e do mal, do prazer e da dor, da vida e da morte.

Mas, por haver tanta confusão entre este sublime sentimento, interroguemo-nos! O que é amar? Amar é desejar o bem do próximo como se deseja para nós próprios! Por isso, se alguém não se ama a si próprio, como pode amar a sua mulher, o seu irmão, o seu amigo, e todos os que lhe estão próximos?

Sem dúvida que para alcançarmos a Serenidade, a Paz Interior e a nossa própria Felicidade, temos que aprender a respeitar e a amar verdadeiramente o nosso próximo, porque a essência do Amor é a chama da eterna luz espiritual que nos foi outorgada pelo Grande Arquitecto do Universo.

Em suma:
Que mal poderá advir ao Homem pelo respeito mútuo entre si, e o Amor que este tem pelos outros?

Que mal poderá advir ao Homem pela sua educação, e pelo seu doce falar para com os demais?

Que mal poderá vir ao Homem pela bondade dos seus actos, e pelas suas doces atitudes?

Que mal poderá vir ao Homem pela confiança que deposita no seu semelhante?

Claro que nenhum mal lhe poderá advir! Antes pelo contrário, com estas atitudes, ele só poderá vir a obter a Serenidade, a Paz Interior e o conhecimento do caminho para a morada do eterno. E, tanto mais que só o Homem tem a capacidade e o poder de unir, sem tirar a dignidade de outro Homem, sem lhe furtar a dignidade do seu próprio Eu. E para isso, o fluxo do Amor tem que estar sempre presente no seu EU. Pois, só o Amor é capaz de pôr a humanidade acima das ideologias, acima dos credos, ou acima das raças. Só o Amor pode fornecer as necessárias e infinitas energias para sobrepujar a fome, a miséria e o desespero, que actualmente existe e grassam na humanidade. Pelo que o Homem deve viver com Amor, com Alegria, com Paz e com abundância, respeitando e honrando as forças da vida que existem dentro deste, de todos, e de tudo à sua volta. Caminhemos pois na senda do Amor e na Força do Bem. Amemos o nosso semelhante, voltemo-nos para ele com amizade e sincera generosidade. E com esta acção, ficamos credores de seremos chamados deuses em potência e em acção, por vivermos com Amor cada momento da nossa vida.

A Serenidade e Paz Interior

A tranquilidade da nossa mente para além de ser um dos mais belos presentes da Sabedoria, é também o fruto de uma longa aprendizagem em auto-domínio, e o resultado do esforço paciente e contínuo na procura do controle emocional. Pelo que a sua presença, para além de significar a existência de uma experiência de Vida madura e reflectida, significa também o conhecimento que se tem das regras que regem a boa convivência entre os Homens. Pelo que à medida que os Homens se reconhecem a si próprios, entram na Serenidade e na Paz Interior, ao mesmo tempo que também se reconhecem como seres que se elevam através do pensamento e da Sabedoria.

Assim, é pelo correcto entendimento do mundo onde o Homem vive e interage, que aquele para além de compreender melhor as relações internas das coisas pela acção da causa e efeito, passa também a ver em cada ser vivo, e em cada forma de vida, mestres e amigos em potência e em acção. Pelo que por consequência deste conhecimento empírico, aquele deixará de se atormentar, de se preocupar e de se irritar, permanecendo em todas as situações da vida equilibrado, constante e sereno. Aliás, um estado de espírito que lhe permite receber de quem consigo conviva, a reverência à sua força espiritual, o sentimento de que pode aprender com ele os segredos da vida, e a confiança de que em qualquer situação pode nele confiar.

Na verdade, o Homem sábio, perseverante e calmo será sempre amado e reverenciado pelos demais. Dado que ele será sempre para eles como se fosse uma árvore, que dá sombra em uma terra árida e sedenta, ou como uma falésia, que entorpece a violência e a fúria das ondas do mar. Quem de vós não ama uma pessoa de coração tranquilo, de temperamento doce e equilibrado? Dificilmente haverá uma resposta negativa! Pois, tais qualidades para além de conferirem segurança, dão também confiança a quem conviva com este indivíduo. Pois, um coração tranquilo ao nosso lado, faz com que não nos importamos que chova, ou que faça sol, porque sabemos que em qualquer circunstância, aquele será para connosco, sempre doce, sereno, e calmo.

Quantos Homens conhecemos nós, que por o seu coração desconhecer a Serenidade e a Paz Interior, têm temperamentos explosivos e amargam as suas vidas no dia a dia, ao mesmo tempo que à sua volta arruínam tudo o que é doce e que é belo! Até mesmo certos Maçons quando estão em discordância com os seus próprios irmãos, muitas das vezes tratam-nos com aspereza, com descortesia, com insultos e muitas injúrias, esquecendo-se dos mais simples princípios de fraternidade, e até dos seus próprios juramentos de Iniciado, tornando-os por tal comportamento “Profanos de Avental” e perjuros. Aliás, um comportamento lastimável e muito censurável, mesmo para um profano, uma vez que tal atitude significa aos olhos da sociedade, uma grande falta de ética, de urbanidade e de bom-senso. Princípios básicos, que geralmente se aprendem no berço, e que nos últimos tempos parecem ter sido esquecidos pelas gerações mais jovens. Aliás, é em tenra idade que se ensina, que as palavras têm que ser usadas com Sabedoria e muito bom-senso, dado que possuem um poder sobrenatural e sacrílego. Pois, com uma palavra podemos amar ou destruir. Pelo que esta poderá ser tão mortal quanto uma arma. E, tendo estas tal poder, é nosso dever apreender o sentido profundo das palavras para não ferirmos inadvertidamente quem connosco intercepte ou conviva.

E tanto mais que se exige aos discípulos de Hirã, em todas as situações da vida, para além dum comportamento exemplar e palavras comedidas, que sejam pacíficos e serenos, porque ao Homem calmo e em paz consigo próprio, mesmo quando numa disputa não tenha qualquer razão, tem sempre algo a ganhar, uma vez que na pior das hipóteses, para além de não deixar atrás de si um inimigo, tem sempre a possibilidade de fazer um novo amigo, enquanto que ao colérico e “profano de avental” nega-se-lhe a razão mesmo que este a tenha.

Obviamente que tal comportamento violento e tempestivo, que alguns indivíduos apresentam, têm uma razão de causalidade, a qual está associada ao seu desmedido ego, muitas vezes incutido por uma educação defeituosa e chauvinista, que lhe envenena o sangue e o espírito, para além de projectar no seu Eu, uma falsa ideia de que é o “centro do mundo”, e que tudo à sua volta gira, afastando deste qualquer humildade e até qualquer discernimento do que é sociável e fraterno.

Assim, porque o ego causa tanto desequilíbrio e muita demência nos espíritos por si dominados, por sinal males muito bem retratados na grande obra de Miguel de Cervantes, “D. Quixote de la Mancha”, podemos considerar que o ego é um verdadeiro veneno para o espírito, dado que é o somatório de todos os nossos muitos defeitos psicológicos, que vivem no nosso mundo interior, e que inconscientemente foram por nós criados e alimentados pelas muitas histórias e mitos que herdamos dos nossos antepassados. Assim, por esta razão, apesar do ego ainda ser muito acariciado por certas castas referenciáveis de indivíduos, não há nada de divino, ou de superior no ego. Ele só cria a soberba e o orgulho, um dos pecados capitais. E, por consequência da sua malignidade comprovada, podemos até considerar que este é o causador de todo o nosso sofrimento, de toda a nossa inconsciência, e até de todos os nossos erros.

Já no antigo Egipto, o ego era referido como os “demónios vermelhos de Seth”, aos quais Osíris deveria combater. E, na Antiga Grécia, Perseu foi obrigado a decapitar a Medusa com a sua espada, por ser aquela o símbolo do ego, e a causadora de todo o tipo de sofrimento ao Homem. Por sua vez, na Bíblia também podemos reconhecer o ego nos chamados pecados capitais: a luxúria, a ira, a inveja, a cobiça, a gula, a preguiça e o orgulho. E, até na “Regra” dos Templários o ego mereceu destaque de forma repetida e inequívoca. Pelo que destas mensagens históricas podemos retirar, que os antigos conheciam muito bem quanto mal esse demónio causava à humanidade, e por isso procuraram com textos épicos, sagrados, ou de governo avisar as gerações presentes e futuras de que se os seres humanos não deveriam carregar dentro de si o ego, uma vez que sem este, o mundo seria muito melhor para o Homem, dado que este seria para os seus iguais mais compreensivo, mais tolerante e mais fraterno.

Contudo, apesar dos antigos nos terem deixado mensagens de alerta e de aviso, o ego ainda existe em abundância e, até é acarinhado por muitos Homens, como sendo o símbolo máximo da sua virilidade e da sua honra. Pelo que na defesa destes pretensos valores, não hesitam em desencadear as mais violentas reacções. Assim, perante tal patologia, devemos defrontar o sofredor deste mal com um espírito cometido e prudente, uma vez que é preferível ganhar para a causa do Bem aquele que foi vítima do seu embriagante ego, ao invés de o humilhar ou de o condenar, acarretando com essa atitude a sua perda.

Aliás, não se pode vencer o mal com mais mal. O mal somente será vencido com o Bem. E o impulso maligno gerado pela visão egocêntrica da vida é que é o verdadeiro mal, aquele que causa no Homem emoções negativas e reprováveis, tais como o ressentimento, a fúria e a inveja. Pelo que a menos que tais sentimentos sejam controlados, estes podem alcançar proporções de destruição impensáveis e de violência incontrolável, que poderá gerar ainda mais infelicidade a quem incautamente destes egocêntricos se aproxime.

Para podermos desfrutar da Serenidade e da Paz Interior, precisamos entender que somos um núcleo de vida que vive em comunidade. E, que somente empregando de maneira responsável a nossa capacidade de sentir, de raciocinar e de usar da palavra, livre das interferências dos cegos instintos e dos laços de dependência, é que podemos nos apaziguar na maior fonte de poder que um mortal pode alcançar, que é a Serenidade e a Paz Interior. Sem a harmonia na Vida nada se consegue de frutuoso e de Bem para esta. Pelo que quem possuir tal poder, transporta dentro de si a Serenidade e a Paz Interior, o que fará com que projecte um efeito de harmonia, tanto para o seu lar, como para o restante seu meio envolvente, e através deste, para o mundo inteiro. Não nos iludamos proferindo palavras ocas e vazias de que somos bons e que os outros são os maus, uma vez que nós somos o bem e o mal, dado que somos deuses em potência e em acção!

Assim, porque muitos Homens desconhecem as suas qualidades divinas, e por conseguinte ainda estão mergulhados na mais completa escuridão, acabam por se tornar amargos, críticos e revoltados consigo e com os que os rodeiam, desperdiçando deste modo as suas energias em emoções negativas e socialmente condenáveis. Em muitos casos, esta falta de Serenidade e Paz Interior leva-os até a paralisar a sua vida, por terem esgotado a sua energia vital, impedindo-os de procurar a felicidade, e por conseguinte, optam por se isolar nos seus “castelos”, e entram em depressão, ou então, na melhor das hipóteses, procuram a fuga numa actividade profissional, para não terem de lidar com a sua vazia vida pessoal. Quando, não há dificuldade, por maior que esta possa parecer, que não se transforme diante da Serenidade, e da Paz Interior.

A Serenidade e a Paz Interior, tal como o ódio marca o semblante e a expressão de quem padece com tal enfermidade, também este sentimento se exterioriza nos olhos de quem aprendeu a arte de ser sincero consigo próprio. O melhor caminho para alcançarmos a Serenidade e a Paz Interior é sermos nós próprios. Dado que a Serenidade e a Paz Interior significa uma conquista de quem possui uma auto lealdade para consigo próprio. A qual é sempre preferível, até por razões economicistas, uma vez que sermos como as outras pessoas gostariam que fossemos, será sempre um esforço mais difícil e mais penoso.

Contudo, apesar da Serenidade e Paz Interior exigir muito trabalho, existe uma fórmula expedita e fácil para encontrarmos este estágio, que passa por fazermos com que o nosso EU interior viaje na magia do sonho, com os pensamentos positivos na resolução dos problemas que nos afectam. Pois, ao flutuarmos nesta dimensão onírica, conseguimos gerar no nosso consciente capacidades desconhecidas para a resolução dos nossos problemas. É certo, que depois de acordarmos deste sonho acordado, iremos ter a estranha sensação de termos vivido uma outra vida. Contudo, tal como o efeito das vacinas no corpo humano, ao viajarmos nesta desconhecida dimensão, vamos ganhar experiências, que nos prepararam para realizar as acções defensivas, ou correctivas, para transformar os factos que nos preocupavam. Assim, com o conhecimento desta fórmula mágica para a resolução dos nossos problemas, e com esta, passamos de certeza a sorrir, que é o primeiro sinal da felicidade, e por conseguinte, encontramos o caminho para a Serenidade e a Paz Interior.

Em suma, quando encontramos a Serenidade e a Paz Interior dentro de nós, obtemos a magia de transbordar para os demais a felicidade. Porém, para conseguirmos tal virtude, não podemos permanecer na superfície da vida, nem tão pouco procurar escapar desta por qualquer meio, uma vez que só encontramos a Serenidade quando enfrentamos a Vida de frente. Não há dificuldade, por maior que esta possa parecer, que não se resolva com a Serenidade, e a Paz Interior. Somente com a resolução dos nossos problemas podemos encontrar o caminho da Serenidade. Quanto à Paz Interior, só a conseguimos alcançar quando renunciamos à vontade pessoal, aos nossos apegos, e aos nossos pensamentos e sentimentos negativos. Pois, como células do corpo da humanidade que somos, cada um de nós tem uma contribuição a dar a esse corpo divino. E, pelas leis cósmicas, ninguém pode encontrar a Paz Interior trabalhando de uma maneira centrada em si mesmo. Só em favor de toda a família humana é que se encontra a Paz Interior.

Não podemos ignorar que o Templo da paz foi edificado dentro de nós. Procuremo-lo então, porque é através deste que irradiamos a Serenidade e Paz Interior para todo o nosso meio envolvente, e através deste, para o Mundo inteiro. É certo que para atingirmos este fim, devemos caminhar de acordo com a luz mais elevada que possuímos, enfrentando amorosamente os que estão em desarmonia connosco, na tentativa de os inspirar para o caminho do Bem e da sociabilidade. Com a certeza de que se conseguirmos levar a harmonia a alguma espírito que não conheça a Serenidade e a Paz Interior, estamos a contribuir para a causa da verdadeira paz. Pois, ao contribuímos para que um Homem esteja em harmonia consigo próprio, estamos a projectar paz no grupo desse Homem, e através da paz deste grupo, estamos a promover a paz em outros grupos, e por conseguinte, estamos a contribui para que haja Paz no Mundo, ao mesmo tempo que estamos também a solidificar a nossa própria Paz Interior e com esta alcançamos o Templo da Serenidade.